Ensaio
Iniciando com questões e evoluindo com as reflexões e possíveis respostas para o momento.
O objetivo aqui é traçar um paralelo entre a dissertação de mestrado de 1999 e os efeitos do uso da tecnologia e do computador antes e depois da pandemia da COVID 19.
Tópicos pensados : refletindo Literacia x Letramento; antes e depois da pandemia; uso das antopotécnicas; entre 1999/2023.
1. Por que falar de Literacia e não de Letramento no mundo pós-pandemia?
Porque não se pode negar os acontecimentos gerados pelo uso contínuo da tecnologia, sendo que a constante adaptação ao mundo não virtual exige muito mais do que letramentos, exige métodos de ressignificação dos conhecimentos adquiridos e a reflexão sobre o jeito de fazer e de ser em relação a tudo que rodeia o ser humano nas suas interações reais do cotidiano, pautado em valores .
Assim como houve a obrigação da reclusão cerceada pela tecnologia, exigindo adaptação para ficar em casa, na vida real, o processo de reintegração da vida na sociedade exigiu nova adaptabilidade.
O processo inversamente proporcional gerou novos olhares sobre situações e sobre regras que pouco a sociedade atual refletia.
A dependência tecnológica continua a guiar a vida da sociedade e das instituições. Quem não se adapta está ficando a mercê de tudo.
Os processos de exclusão e de esvaziamento do ser humano parecem produzir um abismo entre o virtual e o real.
A literacia traz em sua teoria mecanismos de defesa para a readaptação do ser a um novo paradigma, a fim de conciliar as exigências técnicas às condições humanas, no tocante aos valores éticos e morais, relativizados no mundo real contemporâneo e esvaziados no ciberespaço.
Se parar para pensar: quem controla o que é fake do que não é, o mundo privado ou o mundo público?
Reflexões tardias, porém não ignoradas no complexo mundo de avaliação e de reavaliação no espaço físico da Escola pós-pandemia.
Antes e depois
2. Onde reside a educação e como se manifestou o conhecimento em 2022/2023? Por quais caminhos vem trilhando o estudante que deixou a ingenuidade do período anterior à pandemia, para vivenciar a escola em espaço delimitado?
A internet, as mídias, os computadores, as aulas em tela são os mecanismos que não podem deixar de fazer parte de uma aula, na contemporaneidade, haja vista a completa dependência gerada. O caderno, o lápis, o livro, a caneta parecem objetos obsoletos, diante da facilidade do uso da tecnologia, mas, não são. O caderno é um mecanismo de registro. O lápis e a caneta auxiliam no desenvolvimento cognitivo. O livro físico manuseado concretiza a escrita e exige a leitura linear.
As antropotécnicas evoluíram, no entanto, o conjunto do uso de cada uma delas em momentos de aprendizagem na sala de aula ou na tarefa de casa necessita ser pensado e incluído no cotidiano escolar.
Não se pode esquecer que a escola é o espaço do desenvolvimento global e potencial do estudante. Os letramentos são necessários e a literacia também. Aprender a usar o tecnológico é tão importante quanto aprender a mexer na terra ou a fazer tricô ou a bater um bolo, ou a desenhar, ou escrever um bilhete e produzir um texto.
O mundo mudou. As pessoas mudaram o jeito de pensar. Não porque quiseram, mas porque as circunstâncias vivenciadas assim o exigiram.
A telecomunicação, a internet, o aparelho celular e as mídias assumiram um papel preponderante na sociedade cerceada por regras delimitadas pelo poder público em função da pandemia e para a preservação da vida. E jogou literalmente as pessoas para o mercado privativo do ciberespaço.
Porém, tudo isso gerou perdas e ganhos. Quem perdeu? O que se perdeu? Há de se mensurar. E quais foram os ganhos?
A balança da justa medida das coisas do mundo humanóide foi dosada na medida certa? Não há como mensurar? A quem interessa a não mensuração? Estamos cerceados ou estamos livres? Quem domina e quem está sendo dominado? Todos em tudo. Um pouco de cada um.
O espaço de conhecimento ou de informação deixou de ser o espaço físico da Escola, para se transformar na casa, no lar, na residência, no quarto, entre quatro paredes e, principalmente, no uso de uma tela.
A escola foi desconstruída, modificada, transformada. Passou a ser um espaço de diálogo, de interação ou de segregação, dependendo da instância, do corpo docente, da equipe pedagógica e do bairro onde está inserida.
A escola saiu dos muros habituais e cresceu em dimensão, mas não evitou o cerceamento. A diferença foi o tipo de cerceamento. Antes, eram paredes de uma sala, depois as paredes da tela do computador dentro de quatro paredes de um lar.
São os satélites, a energia, as novas tecnologias. Quem controla? Não há um controle expresso, mas condutas possíveis.
No ano de 2022, após o apagamento provocado pela pandemia de COVID 19, o mundo de dentro da Escola e mesmo de fora dela teve que se deparar com tópicos de discussões antigas no que tange à educação.
A professora encontrou estudantes de sexto ao nono ano com dificuldades para ler um texto impresso, de manusear um livro didático, de compreender o texto escrito, de escrever em um caderno ou folha de papel, de usar o lápis ou a caneta, de compreender o uso de um dicionário. Encontrou não leitores e não alfabetizados para escrever na folha de papel.
Porém, dialeticamente, encontrou leitores de redes sociais, sabedores de regras de jogos vituais, leitores de dicionários on line, de e-books, usuários de correios eletrônicos, conhecedores de mapas e de formulários on line, etc.
Foram dois anos em que a escola que se conhecia até então transformou-se em tela, em um mundo de seres obiquos. O estranhamento ocorreu até mesmo para o docente que mergulhou de vez na tecnologia. Voltar a um espaço tão limitado pareceu coisa nova, exigindo adaptabilidade de todos os envolvidos no mundo espacial da Escola em meio físico.
Isso tudo gerou ansiedade, inconformismo, desorientação, ausências, exigindo demasiado planejamento, a fim de que a dependência da tecnologia digital provocada em excesso pela pandemia fosse sendo diluída no espaço físico da Escola, no contexto sala de aula.
3. Traçando um paralelo entre os anos de 1997 a 1999 e 2020 a 2022 podemos reafirmar, sem medo de errar, que a tese de que o computador é um instrumento pedagógico positivo para a aprendizagem do estudante está confirmada. Entretanto, as reflexões sobre o cerceamento continuam latentes. O discernimento e o pensamento crítico reflexivo sobre os efeitos da tecnologia e do uso do computador na escola necessitam ser investigados, bem como os efeitos cognitivos na maneira de pensar humana, pautada no valor, na ética e na moral.
Não se vive mais sem a rede tecnológica que envolve a todos.
Os efeitos são benéficos e também não tão benéficos. Dosar o uso é vital para o bem-estar mental do humano. Ninguém consegue viver sem ter o celular conectado em mãos. Você consegue? Estamos vivendo a correnteza sem retorno no mar da WEB.
Reflexões de Luciene Fontão
