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sexta-feira, 13 de junho de 2025

Um lugar: Felicidad

 


Um lugar: Felicidad


Paris. 1914. A sociedade vivia um tempo sombrio de penúrias. A falta de emprego e de recursos era latente, para quem chegava de trem do interior. 

No campo, as famílias também passavam dificuldades. As tensões de uma sociedade caótica eram sublimadas nos cafés e cabarés. A vida noturna parisiense era um fervo. 

Quando os militares tinham seu dia folga, não pensavam duas vezes, dirigiam-se ao aconchego das belas e deliciosas cortesãs parisienses. O Café "Felicidad" era o mais recomentado porque as meninas eram muito bem cuidadas.

Vivian chegou do interior. Procurou trabalho exaustivamente. Tinha poucos recursos, dados por seus pais; e uma carta com  um endereço específico entregue em segredo por sua mãe.

A recomendação da mãe foi precisa: "Filha, se você não conseguir uma ocupação, trate de ir a este endereço, mostre esta carta à Dona do lugar, diga a ela que não sabe dançar e explique a situação de seus pais, peça um emprego de garçonete".   

Vivian se hospedou em uma pensão para moças, mas tinha recursos apenas para comer e ficar ali por uma semana. 

Pensou que arrumaria emprego logo, mas isso não aconteceu. 

A Dona da pensão foi categórica: "Menina, a vida nesta cidade é dura para uma moça sozinha. Lembre-se que aqui não farei caridade. Trate de me pagar direitinho, uma semana antecipada."

Vivian fez isso. E como não encontrou durante seis dias uma ocupação, ficaria sem lugar para dormir. 

Remexendo suas coisas, encontrou a carta da mãe e o endereço da tal Dona. 

Foi lá durante o dia. 

Era tudo muito colorido e vibrante. Leu na placa "Felicidad". 

Bateu à porta. 

Uma moça de roupas íntimas cheias de fitas e bordados  a atendeu. 

Perguntou o que queria. 

Vivian explicou que vinha para falar com a Dona do lugar, recomendada por sua mãe. 

A garota deu uma imensa gargalhada. Convidou-a a entrar. Vivian percebeu outras moças no recindo, umas bordavam, outras se pintavam, algumas cuidavam do cabelo umas das outras. Tudo ao redor era muito brilhante e colorido, mas os olhos de cada uma a olhavam de cima a baixo, balançavam a cabeça, baixavam o olhar, nada diziam. 

Eis que chega no recinto uma Senhora bem vestida para uma festa, com plumas e paetê. Em um  gesto com a mão, todas se retiram. Examina Vivian de cima a baixo, toca em seu queixo para levantar a cabeça e ver seus lindos olhos verdes assustados e tímidos. 

Pede para que diga o que veio fazer ali. 

Vivian estende a ela a carta de sua mãe. 

Ao ver o nome escrito no envelope, cai na poltrona estupefacta. 

Olha para a menina com mais detalhes e reconhece traços conhecidos. Pede para que se sente.

Abre a carta. Faz a leitura silenciosa. Lágrimas por traz da pesada maquiagem se formam, mas não rola uma lágrima sequer. Ela dobra a carta e a guarda sob seu peito. 

Chama todas as garotas. E diz:

- Meninas, Vivian vai ser nossa nova garçonete. Usará um uniforme próprio e feito exclusivo para ela. A partir de amanhã, virá morar e trabalhar conosco. Deem  boas-vindas a minha  governanta. E à noite, servirá drinkes apenas. Seja bem-vinda, minha filha!

Vivian, ajoelhou-se e beijou a mão da Senhora. E chorou. Disse:

- Mercy. Mercy.


E assim, Vivian saiu da pensão onde estava e foi morar e trabalhar no "Felicidad", com sua avó. Era o que a carta dizia.

(Escrito por Luciene Fontão e publicado no livro: "Às margens do tempo" - Contos. Florianopolis/SC: L.F. Edições. Impresso por Clube dos Autores. Catalogado por CBL,  2025)