Um lugar: Felicidad
Paris. 1914. A sociedade vivia um tempo sombrio de penúrias. A falta de emprego e de recursos era latente, para quem chegava de trem do interior.
No campo, as famílias também passavam dificuldades. As tensões de uma sociedade caótica eram sublimadas nos cafés e cabarés. A vida noturna parisiense era um fervo.
Quando os militares tinham seu dia folga, não pensavam duas vezes, dirigiam-se ao aconchego das belas e deliciosas cortesãs parisienses. O Café "Felicidad" era o mais recomentado porque as meninas eram muito bem cuidadas.
Vivian chegou do interior. Procurou trabalho exaustivamente. Tinha poucos recursos, dados por seus pais; e uma carta com um endereço específico entregue em segredo por sua mãe.
A recomendação da mãe foi precisa: "Filha, se você não conseguir uma ocupação, trate de ir a este endereço, mostre esta carta à Dona do lugar, diga a ela que não sabe dançar e explique a situação de seus pais, peça um emprego de garçonete".
Vivian se hospedou em uma pensão para moças, mas tinha recursos apenas para comer e ficar ali por uma semana.
Pensou que arrumaria emprego logo, mas isso não aconteceu.
A Dona da pensão foi categórica: "Menina, a vida nesta cidade é dura para uma moça sozinha. Lembre-se que aqui não farei caridade. Trate de me pagar direitinho, uma semana antecipada."
Vivian fez isso. E como não encontrou durante seis dias uma ocupação, ficaria sem lugar para dormir.
Remexendo suas coisas, encontrou a carta da mãe e o endereço da tal Dona.
Foi lá durante o dia.
Era tudo muito colorido e vibrante. Leu na placa "Felicidad".
Bateu à porta.
Uma moça de roupas íntimas cheias de fitas e bordados a atendeu.
Perguntou o que queria.
Vivian explicou que vinha para falar com a Dona do lugar, recomendada por sua mãe.
A garota deu uma imensa gargalhada. Convidou-a a entrar. Vivian percebeu outras moças no recindo, umas bordavam, outras se pintavam, algumas cuidavam do cabelo umas das outras. Tudo ao redor era muito brilhante e colorido, mas os olhos de cada uma a olhavam de cima a baixo, balançavam a cabeça, baixavam o olhar, nada diziam.
Eis que chega no recinto uma Senhora bem vestida para uma festa, com plumas e paetê. Em um gesto com a mão, todas se retiram. Examina Vivian de cima a baixo, toca em seu queixo para levantar a cabeça e ver seus lindos olhos verdes assustados e tímidos.
Pede para que diga o que veio fazer ali.
Vivian estende a ela a carta de sua mãe.
Ao ver o nome escrito no envelope, cai na poltrona estupefacta.
Olha para a menina com mais detalhes e reconhece traços conhecidos. Pede para que se sente.
Abre a carta. Faz a leitura silenciosa. Lágrimas por traz da pesada maquiagem se formam, mas não rola uma lágrima sequer. Ela dobra a carta e a guarda sob seu peito.
Chama todas as garotas. E diz:
- Meninas, Vivian vai ser nossa nova garçonete. Usará um uniforme próprio e feito exclusivo para ela. A partir de amanhã, virá morar e trabalhar conosco. Deem boas-vindas a minha governanta. E à noite, servirá drinkes apenas. Seja bem-vinda, minha filha!
Vivian, ajoelhou-se e beijou a mão da Senhora. E chorou. Disse:
- Mercy. Mercy.
E assim, Vivian saiu da pensão onde estava e foi morar e trabalhar no "Felicidad", com sua avó. Era o que a carta dizia.
(Escrito por Luciene Fontão e publicado no livro: "Às margens do tempo" - Contos. Florianopolis/SC: L.F. Edições. Impresso por Clube dos Autores. Catalogado por CBL, 2025)
