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terça-feira, 30 de junho de 2026

O direito de ser feminina

 


Ao ler o capítulo "Pregnâncias" - Sobre quatro aguadas de Colette Deblé do livro "Pensar e não Ver" de Jacques Derrida, fiz uma reflexão profunda sobre a influência que os projetos de Artes Visuais da pintora francesa exerceram e ainda exercem sobre o pensamento contemporâneo desde 1976.  O projeto contemporâneo da pintora, com 82 anos atualmente, propõe a desconstrução das representações e papéis que a mulher executou desde que veio ao mundo, ao longo da história, como protagonista ou não da Arte Visual. 

As experiências de Colette com as "mulheres aguadas" deixam  transparecer os recortes  e a desconstrução  que o papel de ser mulher na sociedade e nas civilizações sofreu principalmente no final do século XX, e que ecoam no início do século XXI. As silhuetas de  mulheres recortadas e fragmentadas, em seus desenhos de aquarela de suas telas pintadas, exploraram a nova visão da feminilidade, que acabou por quase destruir a fêmea,  para dar lugar a outro ser mulher, bem distinto do papel original. A ponto de a maternidade não mais a definir por completo, e sim  o opus ou o corpus. Essa desconstrução proposta por Colette, a meu ver, igualou os humanos e quase destruiu a essência de ser mulher feminina  no mundo. A genialidade da pintora na concepção de Derrida, em pensar e não  ver, traduz: "[...] Ela trabalha. Muito, o tempo todo. Tudo passa, tudo se passa através do trabalho ("através do trabalho paciente e ambíguo ", " o efeito do trabalho"), através  da dupla operação de que falávamos e que consiste justamente em "atravessar" duas vezes, para imprimir e impregnar. Trabalho à vista, com vistas à visão, trabalho com vistas ao nascimento, portanto, aquele que só põe no mundo ao dar à luz. Mas esse trabalho é também um jogo. Ela joga - com a autoridade ( que é preciso - faltosa). 

Indaga Derrida, como o autorretrato se reengendra na citação? Qual é o vidro dessa janela-espelho através da qual você,  o outro, aparece? Responde Colette: "Através do tornou-se, e eis os ladyablogues. Solilogo interior, falo-me através de mim, você só fala através de você e de mim". ( In.: Colette Deble. Lumière de l'air. p.15).

Diante da leitura do texto e da contemplação das imagens, escrevi o seguinte pensamento sobre a influência da desconstrução do feminino na visão contemporânea da mulher: 

Há mulheres que estão se desconstruindo de sua feminilidade para responder aos ditames de uma sociedade, que não valoriza a essência de ser uma fêmea.  A mulher feminina está se assujeitando às rudezas do mercado, da politica e dos ruidos e vozes  das ruas. Trabalha demais para mostrar-se melhor do que um homem, e deixa de lado a sua melhor  essência. Pra quê? Por qual razão? A partir do momento que a suposta liberdade é imposta pelas circunstâncias, deixa de ser "liberdade" para ser uma regra. Querem a todo custo que a mulher  ocupe o lugar da chefe, da gerente, da líder,  da palestrante, da política, etc. Os homens já não querem ser os mandatários, querem a tranquilidade de não ter que tomar decisões,  delegaram o que tinham aos outros seres, ou às mulheres ambiciosas pelo poder. A fragilidade de ser fêmea em certas ocasiões parece sinônimo de "preguiça ", a dor daqueles dias parece "frescura" e o estresse do acúmulo de funções faz com que perca o sentido de estar sentada à mesa com sua família, ou, sendo obrigada  a tomar decisões arbitrárias. Onde ficou o diálogo  da mulher-chefia? Muitas vezes, é a tirana de suas iguais. Pra quê esse liberalismo feminista inconsequente? Há certas situações que somente um homem macho e provedor pode assegurar: segurança contra os atrevimentos de outros seres, por exemplo, maternidade tranquila e assistida, educaçao plena das crianças. Ser mulher feminina é um direito. Se a menina quer estudar e quer casar, sem ser obrigada a ter um emprego, deveria ser assegurada também essa possibilidade. Um homem adequado a esta finalidade anda meio escasso, diga-se de passagem.  O ofício de gerenciar um lar não deve ser totalmente terceirizado, não é mesmo? Mas, cada um tem seu livre-arbitrio. Alguém vai me criticar ao escrever o texto acima. Mas, como sou independente, posso escrever com clareza para as meninas: estudem, aprendam uma profissão, casem por amor e encontrem o homem que se encaixe na sua vida e seja feliz. Trabalhar ou não será uma opção agradável e não uma imposição de mercado. Não abdique do seu direito de ser mulher e feminina, caso deseje apenas cuidar do lar e da família,  não há nada de errado nisso. Seja mais feliz! 

Escrito por Luciene Fontão 

Florianópolis, 30.06.2026.