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quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

Ensaio sobre o escritor poeta Gancheiro Willian Wollinger Brenuvida

Encontros Literários.

 Sugestão de  leitura.



Fotografia de Anna Elizabeth em Nov/2024. Biguaçu/SC


O Poema do livro "O menino e as estrelas"


“O sentimento é

atemporal.

O corpo não.

O sentimento é subjetivo,

[mal]dito,

a qualquer [in]terpretação.


O corpo é,

senão matéria dispersa,

conjunto de átomos,

perdidos,

no [uni]verso.


A alma é

para alguns,

cognição,

para outros,

confirmação,

de fraqueza.


Mas sua leveza desperta,

os olhos, num ver,

distante lembrar,

o de transpassar

o tempo,

as paredes,

a linha telefônica,

o hábito,

que nos impomos”.


(*) BRENUVIDA, William Wollinger. O menino e as estrelas. Ed. UNIVALI. p.143-44, 2003.


(**) com pequenas alterações do autor em 2025. Aqui, inédito


O Ensaio: 

Sobre o escritor intelectual Gancheiro Willian Wollinger Brenuvida (IHGSC/ ALBIG)


       A primeira vez que interagi na rede social Facebook, por ocasião das eleições 2024, encontrei o nome do escritor e jornalista William Wollinger Brenuvida, candidato a vereador. Doutor em Linguagem, atuante na comunidade gancheira, houve esse despertar curioso a respeito do que ele pensava, quais eram suas práticas e sua produção textual. Com ascendência materna majoritariamente ibérica, notadamente açoriana, acredito que tenha sido uma escolha consciente.

Também eu sou de origem ibérica, portuguesa, e vivemos numa região entremeada pela formação sociocultural açoriana, como sempre o William salienta. Há outras perguntamos a ele? Sim, ele responde, aliás, ele mesmo diz que os antepassados originários, indígenas estavam perambulando a ilha e continente há mais de 1000 anos, e que ele tem outras formações culturais e genéticas, ítalo-eslavas, germânicas, africanas, árabes e bascas, mas que a formação açoriana foi aquela que obteve um predomínio linguageiro e sociocultural sobre as demais. “São Paulo e Rio são diferentes”, ele diz, “lá, respectivamente, a influência majoritária é indígena e africana, depois os europeus tentam fazer parte desse cenário”, ele completa dizendo, “a chegada dos açorianos ao litoral catarinense, com festas e folguedos, crenças e práticas concretas, que antes eram moçárabes, judaicas e cristãs, se enraizaram no modo de ser e existir no litoral catarinense.”.

Descendente dos CHANDOS/Cantos, da Praia da Vitória, na Ilha Terceira, e mais cinco ilhas daquele arquipélago, William vive num lugar peninsular chamado Canto dos Ganchos, é profundo conhecedor de suas raízes, e sempre que retorna a Florianópolis, vai até a Capela de N.S. das Dores, na Catedral, para realizar uma oração para sua antepassada, de sete gerações, sepultada ali, e que dá o nome de uma rua em Canto dos Ganchos (o pedido e explanação foi dele, inclusive apresentando documentação que atesta o sepultamento).


Chama a atenção uma citação, de José Saramago, que ele apresenta em algumas redes sociais, na abertura, “Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória”. Será um aviso, ao leitor desavisado, que ele, William, não é nada comum? Saramago é um homem do tempo do William, também de antes, e de um porvir. Quem conhece o William, sabe, que ele é diferenciado. Ele acolhe, porém, provoca, transformações.

Portanto, não será um diálogo qualquer, ou, assim, como parece transparecer. Delinear o perfil do William? Talvez, importante dizer como ele é atravessado pela memória. A memória como lembrança (reminiscência), a memória social (coletiva), a memória institucional, a memória mitológica, a memória registrada e a memória do historiador. E por sua formação acadêmica, mais uma memória a adicionar, a memória discursiva. E como os acontecimentos históricos, mediáticos, culturais, são inscritos ou não nessa memória, ou ainda como eles são absorvidos por ela, ou produzam nela uma ruptura, é por aí que o William se pergunta como uma memória é produzida. 

A trajetória de vida deste escritor é atravessada pela memória, pelas práticas socioculturais e também por uma visão mais ampla do que é ser afetado pela ancestralidade. Ele se afirma um gancheiro, porém, essa afirmação não é resultante de uma redução do William de outras questões, ou seja, ele se inscreve como um gancheiro, e é aí que a palavra-conceito vai se apresentando com e por camadas. Ser gancheiro, para o William, é como ele mesmo diz: “Meu compromisso com este lugar (Ganchos e Armação) vai além. Aqui estão meus ossos (passado), meus nervos (presente) e meus sonhos (futuro). Tudo isso de maneira não-linear. Escrevo tudo como meus antepassados greco-bizantinos, talhando o vaso de barro, em forma circular, [in]finito”.

Tal qual o poema de Alphonsus de Guimarães, o aroma presente em sua obra e dia-a-dia, dá a ela uma ausência-presença, muito própria da sinestesia. E nas alvas areias da Armação da Piedade, ele lembra seu patrono em mais de uma academia literária, com Juvêncio Araújo Figueiredo, ele tem o sabor dos laranjais e parreiras da Ilha e Continente, dançando com o povo das vilas, memórias baleeiras. Sim, ele é descendente de João Simão Alves, Joaquina Roza da Cunha e de Manuel Baleeiro, além de algumas personagens passadas na baioneta, na Fortaleza de Santa Cruz do Anhatomirim, ou Anhoty, como ele prefere dizer – e escrever.

Sua ação em prol da comunidade, da qual faz parte desde muito jovem, sob a influência da memória de seus avós, fortalece a teoria, de forma que, penso, estarmos diante de alguém que sabe aonde quer chegar, embora não se (pre)ocupe com o que o mercado de trabalho procura, em termos de agradar a todos. Ele está pronto para encarar desafios e alçar voos mais altos, em prol da comunidade a qual pertence. Do momento que o referendam como um escritor memorialista, um jornalista atuante, um homem de respeito, um servidor exemplar, um amigo para as horas de maiores tribulações, um excelente interlocutor, um político de luta de classes, alguém com quem a cidade onde reside pode contar. E como disse um conhecido, na rua: “O William é gente boa!”

A cultura, a preservação do patrimônio material e imaterial revelam um efetivo esforço de trabalho em prol da sociedade na qual suas origens são alicerces e o chão da estrada. Envolvido em muitos projetos, vivencia a necessidade de preservar o ecossistema de Ganchos e região. E faz parte da equipe de trabalho do Projeto de restauro da Igreja Católica da localidade de Armação da Piedade, o qual foi contemplado com os recursos do Prêmio Elisabete Anderle da Fundação Catarinense de Cultura - FCC.

Ele fala e discursa tão bem! Sabe o que diz e faz! Expressa-se com leveza e se veste de acordo com o que a ocasião pede. Nas redes sociais, o azul parece ser a sua cor preferida. Não é pra menos, já que o mar, o sol, a lua, as estrelas e o céu estão sempre presentes em sua veia poética. Pratica esportes náuticos e trilhas ecológicas.

Ao ler os seus poemas, recorro à teoria de análise de Derrida em seu livro “Pensar e não ver”. Derrida lida com a observação e análise de uma obra de arte. A partir da referência, afirmo que o poeta gancheiro escreve uma poética de protesto, diante de assuntos atuais e um poema em processo, diante da efemeridade da vida material, que não se estrutura e nem se preocupa com as rimas tradicionais. Produz um texto injuntivo que retrata o mundo e suas tradições, na busca por movimentos que melhorem a vida das pessoas e do lugar que habita. Percebe-se em seus registros midiáticos e fotográficos que as tradições açorianas o encantam, bem como uma necessidade premente de levar cultura aos locais mais distantes do interior, além de preservar as tradições seculares da pesca e a religiosidade do povo.

Sua trajetória de lutas sociais o levou a concorrer a cargos eletivos, cuja suplência e militância política proporcionaram a ele a ocupar espaços de influência no município de Governador Celso Ramos. A ascendência indígena, africana, moçárabe, açórico-madeirense, nortenha (Norte de Portugal), lisboeta e alentajana, também raiana e basca, italiana, eslava e germânica, transformou o menino das estrelas em um homem de personalidade forte e influente. Seus textos são ricos e trata de expressar o quanto se preocupa com os lugares e as memórias de Ganchos e arredores.

Nós nos encontramos em eventos literários, da Academia Catarinense de Letras (como convidado) e da Academia de Letras de Biguaçu (membro). O Doutor William Wollinger Brenuvida também é membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina – IHGSC.

Em diálogo pela web, interessei-me em traçar e escrever um pouco sobre um perfil do Doutor, escritor, memorialista e poeta. Um atrevimento que resultou em um texto/ensaio. 

Ao conhecer o lugar onde habita e vive, dá pra imaginar o porquê da trajetória dele ser de sucesso. É uma visão tão boa, tão singela, tão visceral. Também, dá para imaginar o quanto de inspiração aquele pedacinho do paraíso luso-brasileiro o oferece, já que o vento traz o som do mar e o brilho das estrelas em noite de luar. A mágica do pôr do sol, o encanto do nascer da Lua. Dirigindo em direção ao Canto dos Ganchos, atravessa-se a estrada com o nome de um de seus ancestrais – Francisco Wollinger - uma estrada longa e que encanta pela beleza dos campos e das montanhas verdes. Ao descer, aparece a vila, a visão dos barcos, a baía calma, um lugar pitoresco, alma lusitana, de gente simples, boa e trabalhadora. Canto dos Ganchos esconde recantos deslumbrantes como a Praia da Cruz, trilhas gancheiras.

Sobre o homem comum pouco posso dizer. É uma pessoa atenciosa e muito inteligente, bem família. Em um de seus status, em redes sociais, ele brinca com uma descrição: “Ponto de mutação. Um dia muda. Ou cala. Um dia assopro. Noutro, assopro: poesia em que a luta continua.” Esta epígrafe ele assina com o nome do trisavô Vazyl (Basilius) Perejmybida (é daí que deriva o Brenuvida). 

É corintiano. Por influência do avô paterno, e gosta mais do Corinthians do que de futebol. O futebol, diz ele, é subsidiário. Antes vem o Corinthians. O Corinthians é o time do povo.



Em linhas gerais…

William Wollinger Brenuvida nasceu em 17 de junho de 1979. É jornalista, político e escritor.  Doutor e Mestre em Ciência da Linguagem. Especialista em Direito Processual Penal, graduado em Jornalismo e Bacharel em Direito. Premiado em concurso de prosa e poesia, incluindo o primeiro lugar no Prêmio Franklin Cascaes de Contos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Escreveu diversos trabalhos literários e científicos, entre os quais, “Para além do Crivo: circulação de sentidos na prática de mulheres em Ganchos/SC”, e o livro de poemas: “O menino e as Estrelas”. 


De um poema, vencedor de concurso internacional, destacamos:


(E)bola


A bola da vez,

não é a corda que ata,

o nó que maltrata,

o ferro na rês.


A bola da vez,

não é o bloco que desfila,

o veneno que destila,

o burrinho pedrês.


A bola da vez é o boi da cantiga,

que malhado a menina assustava,

e de mudo e banzo tinha é nada.


A mentira que a cifra adorna,

faz da África uma terra [mal]dita,

do ebola oportunista, a bola da vez.





REFERÊNCIAS


ACHARD, Pierre [et. al]. O papel da memória. 4. ed. Campinas/SP: Pontes Editores, 2015.


BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 44. ed. São Paulo: Cultrix, [1970] 2007.


BRENUVIDA, William Wollinger. O Menino e as estrelas. Itajaí/SC: Ed. Univali, 2003.


CANDIDO, Antonio. Na sala de aula: caderno de análise literária. [S.l.]: Editora Ática, 1985.


DERRIDA, Jacques. Pensar e não ver: escritos sobre as artes do visível. Ed. UFSC: Florianópolis, 2012.


SACHET, Celestino. A Literatura dos catarinenses. Unisul: Palhoça, s/d.

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Escrito por Luciene Fontão em Maio/2025.

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